Nesta semana, jantando com minha orientadora a Universidade da Califórnia, a conversa acabou indo pra essa classe média que anda meio perdida no Brasil. A mesma que não pede anistia, mas também não bate palma pra esquerda. Que não reza diante de pneu queimando, mas também não se identifica com os gritos da extrema direita. É um grupo que ficou fora das guerras culturais dos últimos anos — e que hoje só quer viver em paz, pagar os boletos e tentar não enlouquecer.

Falei pra ela de Vale Tudo e da Odete. Naquele dia ia ao ar o capítulo em que a personagem morreu, um desses capítulos “eventizados”. A gente sabe que a Odete, da Débora Bloch, segurou a novela inteira. Mas quem também se destacou foi a Consuelo, vivida por Belize Pombal – ok, e também a Tia Celina de Malu Galli.

A Consuelo é o retrato da mulher comum. Chefe de família, trabalhadora, prática. Não é uma feminista de bandeira, mas é uma feminista de fato — dessas que organizam a casa com planilha de tarefas, chefiam a família e ainda cobram do marido a falta de desejo. Ela é uma mulher real, com senso de responsabilidade e sem tempo pra hashtags. Quase derrapou na reta final quando, por conta do roteiro, virou um disco agarrado ao reclamar do namoro do filho, de 20 e poucos anos, com a melhor amiga, de 40 e poucos.

A Consuelo é conservadora? Com certeza. Votaria na direita? Talvez, em algum momento de raiva e cansaço. Votaria na esquerda? Provavelmente também, pelos mesmos motivos. Ela é, acima de tudo, alguém que não quer participar de uma guerra cultural ou moralismo ideológico. Ela quer estabilidade, respeito, segurança, trabalho, saúde. Quer viver a vida dela em paz, assim como boa parte da classe média do Brasil (ler: https://oglobo.globo.com/blogs/pulso/noticia/2025/10/05/os-invisiveis-como-pensa-a-massa-de-eleitores-que-rechaca-a-polarizacao-e-pode-decidir-as-eleicoes-em-2026.ghtml).

Essa classe média é o grande território em disputa hoje — e, ao mesmo tempo, o mais ignorado. A esquerda parou de falar com ela quando trocou “igualdade” por “identidade”. A extrema direita tenta promover moral e religião, mas perdeu a mão no fanatismo.

O mercado, por sua vez, surfou forte essa onda progressista entre 2015 e 2022. Falou de diversidade, propósito, ESG, lacrou nas campanhas — e agora parece meio sem saber pra onde ir. Nesse vácuo, talvez a Consuelo fosse a boa representante do momento.

Afinal, hoje a gente vê marcas fazendo ações com a Débora Bloch, mas eu queria saber: cadê as marcas com a Belize Pombal ? Porque, se o marketing aprendeu a falar com o extremo, talvez o desafio agora seja outro: reaprender a falar com o meio.

Leonardo Moura

Author Leonardo Moura

Criador do Branded Content Brasil.

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